segunda-feira, 5 de novembro de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Melancolia

Pensei muito se ia escrever sobre este filme aqui, pois é um filme que incomoda e perturba. Não é um filme para distrair. Ele é denso e provoca muitas reações divergentes entre os expectadores.
Então, ainda há chance de você escapar para ler algo mais leve e divertido. Temos algumas opções por aqui no Blog.
Bem, se você se arrisca nesta leitura é porque está curioso ou realmente quer se aprofundar nas questões delicadas que envolvem este filme. Uma dica para os curiosos é que não vejam este filme sem entender um pouco mais sobre a proposta que está por traz dele, sob o risco de desligarem o DVD antes mesmo dos 15 primeiros minutos.
Vou logo adiantando que gostei do filme, mas sei que isso deve ter acontecido porque me preparei para vê-lo.
Não tem como analisar este filme sem esbarrar na personalidade do diretor e roteirista dinamarquês Lars Von Trier. Aquele mesmo que foi banido do festival de Cannes por dar uma entrevista desastrosa onde declarou: “Eu entendo Hitler. Claro que ele fez algumas coisas erradas. Mas eu o compreendo.”.
Além de polêmico, muitas vezes já manifestou publicamente que sofre de depressão e que não acredita em nenhuma religião ou crença. No fundo, o filme dramatiza algumas dessas suas características. Com sarcasmo, durante o lançamento do filme, Lars ainda se declara nazista, provocando um pouco mais a polêmica até sobre a escolha da trilha sonora do compositor alemão Richard Wagner.
Lars Von Trier busca um cinema mais realista e menos comercial. Encabeçou um movimento cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto publicado em 13 de março de 1995, intitulado Dogma 95. Junto com Thomas Vinterberg, formularam as regras que seriam conhecidas como “voto de castidade”:

1) As filmagens devem ser feitas em locações. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
2) O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
3) A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
4) O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
5) São proibidos os truques fotográficos e filtros.
6) O filme não deve conter nenhuma ação "superficial". (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).
7) São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).
8) São inaceitáveis os filmes de gênero.
9) O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.
10) O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Em fevereiro de 2005, Lars ainda acrescentou mais 4 novas regras:

1) A gravação deve ser feita em formato digital;
2) As filmagens devem ocorrer na Escócia;
3) As filmagens não podem ultrapassar o prazo de 6 semanas;
4) O custo total do filme não pode ultrapassar a quantia de um milhão de libras esterlinas.

Em Melancolia percebemos bem a influência do movimento. É interessante destacar que, mesmo depois de tantos anos do Dogma 95, Lars Von Trier ainda recorre a estes aspectos. Melancolia é todo com câmera na mão e filmado em locações. Vemos poucas produções de arte e a luz é quase toda ambiente, ficando escura em muitos momentos. O som também é raramente extra-ambiente. Apenas a trilha de Tristão Isolda se repete em momentos marcantes do filme. Os demais sons vêm todos do ambiente filmado. Para tratar de seu tema de ficção científica, Von Trier só teve que quebrar a lógica de cinema real para inserir alguns efeitos visuais totalmente necessários.
Melancolia é um filme de ficção científica, onde um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto, passamos a observar o comportamento humano, especificamente sob a ótica do fim da existência.
Melancolia é um filme de ficção científica sim, que num cenário palaciano, retrata duas irmãs (uma noiva, Justine (Kirsten Dunst) e outra já mãe, Claire (Charlotte Gainsbourg), com o seu marido John (Kiefer Sutherland), nas suas relações familiares e interpessoais. Apesar de muitos classificarem o filme como “Disaster Movie”, na minha concepção é muito mais que isso. Lars Von Trier não está preocupado em dar ênfase no fato da catástrofe, na esperança ou no risco do acontecimento, já que, de acordo com o começo do filme, é tudo inevitável. Ele está à procura de entender como cada um se portaria diante do fim. Não o mundo, mas apenas essas quatro pessoas. O cineasta está em busca da pessoa, da unidade e do ser humano como único em uma situação que ele acaba não tendo controle.
Toda a primeira parte de Melancolia, intitulada Justine, se resume à festa de casamento da protagonista. Em um tom realista, Lars Von Trier percorre a festa desnudando seus personagens. Aqui, apenas alguns indícios do planeta que se aproxima, o foco é Justine e seus problemas pessoais. A relação doentia entre Justine e sua mãe, vivida por Charlotte Rampling e a veneração pelo pai, vivido por John Hurt. Isso sem falar no chefe inconveniente e o estagiário em busca de um slogan em plena festa de casamento.
A segunda parte possui mais densidade emocional. Aqui estamos cercados apenas pela família a espera do impacto do planeta, ou simples passagem. Interessante perceber a diferença das personalidades das duas irmãs, sempre se opondo. No início, Justine era a sonhadora, Claire era a prática. Justine foi se tornando a complicada, Claire a protetora. À medida que Melancolia se aproxima, Justine vai se acalmando e Claire se desesperando. A intensidade da angústia, a espera, a sensação de estar preso a um local sem saída, nos envolve.
Lars Von Trier coloca diversos símbolos escondidos em cada cena, como a própria situação da encruzilhada, ou o misterioso buraco 19, quando passou o filme inteiro nos lembrando de que só existem 18 buracos no campo de golfe. A escolha da música Tristão e Isolda para conduzir a história também é bastante simbólica, já que se trata da história de amor mais triste e antiga da humanidade.
Outro ponto importante deste filme é encontrar em Melancolia uma Kirsten Dunst completamente diferente da que conhecemos até agora, não apenas mais intensa por trás de sua aparente passividade. O primeiro plano de seu rosto é particularmente forte, mas ela consente em aparecer algumas vezes sem roupa, inclusive, em uma bela cena em que se banha num riacho sob a luz do planeta Melancolia.
Kirsten Dunst mereceu o prêmio de Cannes e todos os elogios subsequentes por se entregar a uma personagem fascinantemente complexa. Todo o elenco acompanha sua dedicação construindo um vínculo e um tom incrivelmente íntimo em cada cena.
Fica a pergunta se Penélope Cruz se arrependeu, após trocar o papel por sua participação em Piratas do Caribe. Sendo ironia ou não do diretor, o fato é que, nos créditos, o primeiro nome a quem ele agradece é a atriz espanhola. Mesmo que tenha sido uma cutucada, é de se agradecer mesmo, já que o resultado em cena não poderia ser melhor.
Melancolia não é e nem tenta ser cinema de entretenimento ou puramente narrativo. O filme dialoga com a arte, a linguagem e a poesia. Sendo assim, depois desta tentativa de preparação, vá ver o filme e volte aqui para comentar, pois certamente assuntos não vão faltar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne

Vivi minha infância lendo as aventuras de Tintim. Na verdade lembro-me da minha mãe contando as histórias para mim porque eu ainda era muito pequeno e nem sabia ler. O Universo do cartunista belga Hergé era tão rico e empolgante que deixou lembranças até hoje no meu inconsciente. Tudo isso gerou uma grande expectativa minha neste filme. Mesmo sabendo que deveria evitar as óbvias comparações com as histórias originais, fui vê-lo com uma leve preocupação de sair do cinema decepcionado.
Decepção foi tudo o que não tive neste filme. O filme é extremamente bem feito, dirigido com preocupações voltadas para os detalhes que para a maioria podem passar despercebidos. Chamo a atenção até para os créditos iniciais que são preciosos, pois fazem uma homenagem às mais diversas aventuras do repórter.
Quando o filme realmente começa, os fãs reconhecem de cara um personagem que não está nos álbuns, mas é o mais importante para a existência de Tintim. A primeira cena onde aparece o rosto do protagonista pela primeira vez é muito bem montada. Uma forma inteligente de amenizar a comparação natural entre a versão digital e a versão original. Tintim, desenhado à mão pelo “famoso” artista de rua é mostrado como uma cópia que reflete a verdadeira imagem dos quadrinhos. Ali mostrava-se a percepção daquele artista, na verdade uma homenagem ao seu criador. Este tratamento funcionou muito bem. Com isso, Spielberg teve uma liberdade que permitiu com que Tintim não fosse um boneco de plástico com os olhos mortos, mas sim um jovem que poderia ser real, vivendo num mundo animado, bastante realístico.
Assim como na história em quadrinhos, o filme não perde tempo com apresentações e a aventura já começa nos primeiros minutos. Tintim encontra uma das réplicas do Licorne, navio que chama a sua atenção em uma feira de antiguidades. Minutos depois, a trama está montada, pois a tal réplica passa a ser cobiçada por vários interessados, demonstrando ser alvo de algum mistério.

Para quem conhece o Tintim da versão original, perceberá que o filme faz uma fusão muito bem feita de duas histórias ("O Caranguejo das Tenazes de Ouro" e "O Segredo do Licorne"). Os elementos principais foram aproveitados, resultando em uma história que faz todo sentido, que poderia tranquilamente ter sido escrita por Hergé.
O Capitão Haddock ganhou mais atenção neste filme. Os roteiristas optaram por uma versão mais parecida com a do álbum de estreia do personagem, "O Caranguejo das Tenazes de Ouro", em que ele passa a maior parte do tempo bêbado. O roteiro, na verdade, gira em torno do velho lobo do mar, que tem suas origens explicadas através da história de seu antepassado Sir François, o capitão do Licorne.
A cena da batalha naval entre o Licorne e um navio pirata é uma das mais fenomenais que eu já vi no cinema. A luta coreografada entre Sir François (capitão do Licorne) e o pirata Rackham é excepcional, bem como as transições entre os flashbacks e a narração do Capitão Haddock no deserto.
A qualidade da animação é monumental e o resultado com as crianças é maravilhoso, pois percebi que é a mesma que eu tinha na minha infância com os quadrinhos. Pedia sempre para ler de novo, de novo e de novo, até minha mãe cansar. Foi exatamente assim, quando acabou o filme, que a minha filha de 5 anos manifestou sua satisfação: Pai, podemos ver de novo?
Vencedor do Globo de Ouro na categoria de melhor animação, este filme ainda vai render muitos prêmios. Confesso que para mim, Spielberg se redimiu com este filme. Eu tinha ficado com uma péssima impressão do trabalho que tinha feito em Cavalo de Guerra. Neste filme, apesar de ser uma animação, a direção foi impecável. Não deixem de ver. Recomendo para adultos e crianças.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O Homem do Futuro (2011)

“Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo... Temos todo o tempo do mundo...”. Com certeza a maioria de vocês já identificou a música “Tempo Perdido” do grupo Legião Urbana. Por sinal, foi exatamente esta a sensação que tive ao ver este filme. Perdi meu tempo. Que me perdoem os “deuses” que regem a cultura nacional por achar um filme escrito e dirigido por um integrante da talentosa família Montenegro ruim. Na minha modesta opinião, achei muito ruim mesmo, contradizendo muitas críticas que andei vendo por ai.

A ousadia do diretor Claudio Torres em lançar uma história de ficção científica com o enredo que se mistura a uma comédia romântica é péssima. O público que gosta de Sci-fi é bem exigente, não aceitam muito bem qualquer lógica boba que tenta explicar aspectos técnicos, naturais nos filmes do gênero. E este filme foi uma das piores tentativas de se trabalhar com o tema “viagem no tempo”.
Claudio Torres em segundo plano
Os diálogos são bobos, sem criatividade. Os atores parecem perdidos naquela correria que se passa no dia da fatídica festa de faculdade onde Zero (Wagner Moura) é ridicularizado.
Com uma historia fraca, sobra a performance dos atores. Foi aí que me surpreendi de verdade. Vi um Wagner Moura forçado, com pouca naturalidade para interpretar um jovem bobo, gago, tímido que se apaixona pela garota mais bonita da faculdade. Bem piegas mesmo, totalmente diferente dos filmes que passaram por seu curriculum vitae. Mesmo se aventurando a fazer três personagens em um só, Wagner não me convenceu. Uma pena porque eu gosto muito deste ator.

Para não terminar esta crítica sem nenhum elogio, destaco a música “Tempo perdido” que é exibida mais de 10 vezes ao longo do filme. Na verdade, parece que só existe ela na trilha sonora. Como gosto muito de Legião, curti em cada momento que ela tocou. Foi o que consegui tirar de bom do filme, a música. Uma pena para o cinema nacional e para quem foi ver o filme, fisgado pelo apelo comercial “Wagner Moura”. Infelizmente, não recomendo nem para sessão da tarde.

Um conto chinês (Un Cuento Chino, 2011)

Ricardo Darin e a vaca ...
O filme é muito interessante. Este foi o filme de maior sucesso no ano passado na Argentina. Uma produção singela, mas muito expressiva. Um exemplo de comédia que envolve um assunto dramático e reflexivo, mas que faz você rir bastante.

A atuação de Ricardo Darin, como Roberto, é simplesmente sensacional e bem explorada pelo diretor Sebastián Borensztein. A história é toda focada em Roberto, um pequeno comerciante de subúrbio, metódico, sozinho, rabugento, que se depara com a necessidade de conviver com um chinês que não fala uma palavra em castelhano. Perdido, em um país diferente, Jun (Ignacio Huang) precisa da solidariedade de Roberto, que mesmo a contragosto o abriga até que achem o tio que Juan veio procurar na Argentina.

Um conto Chinês é um filme que passa a mensagem de que tudo tem um sentido de ser nesta vida. Até mesmo um fato ocorrido na china, onde uma vaca cai do céu em cima de uma noiva na hora de ser pedida em casamento.

Procurem assistir este filme, pois você vai rir, refletir e principalmente se divertir com a interpretação de Ricardo Darin. Imperdível